segunda-feira, 26 de setembro de 2011

nós, as donas do tempo

As mulheres não precisam de rótulos, precisam de orientação. Não precisam de ser chamadas disto ou daquilo, desde que saibam que papel representam. Não, as mulheres não precisam de conhecer os vizinhos nem o piriquito para se sentirem integradas na vida de um homem.
As mulheres precisam, tão simples quanto isso, de sentir um mínimo de segurança e de saber que ele vai estar lá na manhã seguinte, depois do sexo; que ele vai estar lá para o todo o mal, depois do bom.
Seria muito mais fácil não termos, simplesmente, expectativas. Andarmos à deriva, com o sangue morno e sem emoções. Há quem seja claramente capaz disso - eu já fui. Mas é a maior ironia do mundo quando reconhecemos que nos sabe melhor receber algo de alguém por quem esperamos, do que de alguém de que quem nunca quisemos nada.

Às vezes é uma questão de tempo até que a outra pessoa perceba que esperamos todo este tempo por ela. No entanto, às vezes é uma questão de tempo até nós próprias percebermos que estamos a querer esperar demasiado de alguém que não tem nada para nos dar, agora.
Chama-se timing. E é um grande filho da p***.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

nós, as que escrevemos cartas

Não me digas isso.

Odeio quando fazes de conta que não ouves o que te digo e falas por cima do que já pronunciei, como uma estação do ano que vem para suceder a outra. Não, não te vou deixar ser o meu inverno. Isto porque não te vou deixar ser coisa nenhuma na minha vida, ocupa-espaço, parasita de amor. Não me digas isso, já te disse. Eu é que escolho qual a melhor altura para bater a porta e te virar as costas; eu é que decido quando viro a página deste livro maldito que ando a escrever há anos a fio.


Sai daqui, não me toques. Esquece que respiro o mesmo ar que tu, nesta mesma cidade, mesma casa, mesmo quarto, cama, palco. Esquece o que vivemos, porque isto não é vida. Esquece o que tivemos, porque a possessão destrói os amantes; viste como tudo se foi num instante? Como deixamos de sentir o cheiro do mar pela manhã? E como deixamos de ouvir o trânsito enquanto procriávamos sem risco de futuras crias, embalados no ritmo frenético da cidade que nos engolia? Viste? Não, não viste. Nunca viste as dores dos sonhos que plantavas; era sempre eu que estava lá para as colher.


Não me digas isso, não te atrevas. Odeio quando me ignoras, quando elevas o volume e fazes com que a minha fala se perca no eco da tua – como eu sempre me perdi em ti; ou quando fazes uma pausa e dizes, com essa voz séria, irónica, filha da mãe, algo… que sabes que me vai recortar o coração, pelo tracejado, com tesouras de bicos.


Não me digas isso. Não digas, porque sabes que eu fico. Não digas, porque sabes que eu não posso ouvir-te dizer isso. Não. Não. Não digas. Não digas por favor; dói tanto ouvir-te dizer o que eu sei que não é meu, que não possuo, que não criei. É desta possessão louca que te falava: mata os amantes, tristes sonhadores da rebeldia. Dói tanto. Porque me perco de mim, deste limite, deste tracejado. Porque não sei onde tu começas, se afinal de contas eu não termino. Não digas isso. Fazes a pausa longa, colocas a voz. ‘Mas… eu amo-te.’

Foda-se.




25 de Maio de 2010


domingo, 21 de agosto de 2011

nós, as mulheres com coração

As mulheres com coração têm muito que se lhe diga.

- por um lado, uma mulher que deixa que o coração comande todas as suas decisões, acabará por se tornar impulsiva, inconsciente, melodramática; perderá toda a noção da realidade e apenas será devota do sentimento que a domina. Uma mulher com coração é, por isso, vista como frágil, menos competente, mais repleta de erros. Uma mulher com coração é mais propensa a sofrer, a magoar-se, a quebrar.

- ou, por outro lado, uma mulher que esconde o coração que tem é vista como selvagem, fria, indomável; calculista ferrenha, nunca poderá sentir nada verdadeiro, se a sua única ocupação é esconder o coração que de facto tem. Uma mulher que esconde o coração que tem é, por isso, vista como menos mulher. Como pedra de gelo, como insensível, falsa, impostora. Uma mulher que esconde o coração que tem é mais propensa a fazer sofrer, a magoar, a quebrar (outros).


Nem tudo é assim tão radical - antes fosse. Talvez assim não acordassemos a meio da noite sentir falta de algo que nunca soubemos que nos fazia de facto falta. Talvez assim não fitassemos com raiva o fundo do copo de alcool e percebessemos que a bebida anestesia, mas não cura; que as gargalhadas com amigos nos revitalizam, mas não ecoam para sempre na memória; que os abraços, as palavras, os olhares da melhor amiga servem de consolo, mas não substituem aquele olhar ao acordar.
Antes fosse tudo assim tão radical, dividido entre dois tipos de mulher, ambas com coração: as que mostram que o têm e as que o escondem. Seria muito mais simples para os homens perceber-nos e para nós nos encontrarmos. Mas não, não é assim tão fácil.
As mulheres são criaturas disfarçadas. Adeptas do jogo, da sedução, do teatro. Verdadeiras sim, mas com muitas armaduras a proteger a sua carapaça de ouro.
Nem as mulheres deixam de ter coração, nem os homens deixam de o querer encontrar em nós. Simplesmente somos contemporâneos de uma sociedade que vive para além do que sente, por não o querer sentir. Por tanto querermos evitar sofrer, privamo-nos de sentir - e ao temer a queda do avião, privamo-nos da viagem. Mas há tanta, tanta coisa para conhecer neste mundo.... E de certeza que nenhuma de nós foi a mesma mulher a vida toda - uma mulher cujo coração foi partido irá forçosamente escondê-lo até que cure; e uma mulher com o coração escondido pode perfeitamente vir revelá-lo.



Gostar é provavelmente a
melhor maneira de ter,
ter deve ser a pior maneira de
gostar.

José Saramago

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

nós, os mosquitos

Nunca desafiem uma mulher - mesmo que ela tenha de perder tudo para vos ganhar, nunca vai permitir-se perder um desafio.
É esse o maior instinto feminino: a competição; o jogo; a caça. Se há uns anos acusavamos os homens de perderem o interesse nas mulheres depois de as levarem para a cama, hoje em dia são as mulheres que se desinteressam sem saberem bem porquê.
Porque eles são demasiado boas pessoas e nós gostamos é de bad boys. Porque só nos apetece passar um bom bocado e eles já falam em comprar colchas para a cama de casal. Porque são queridos, atenciosos, sufocantes. Porque a beleza interior suplanta a exterior e isso nos faz uma confusão danada quando só queremos amar o físico.
No fundo, algumas mulheres são como mosquitos: distraem-se com as luzes. Apaixonam-se pelos momentos e não pelas pessoas, e desapaixonam-se com a mesma facilidade; apercebem-se a meio da viagem que não era aquele o caminho que queriam ter seguido.... ou então apercebem-se a meio da viagem que gostariam muito de poder voltar atrás para o caminho que um dia julgaram ser o correcto...e não seguiram.
Porque há homens que realmente valem a pena, mas deitam tudo a perder por não nos conseguirem desafiar. Porque há homens que realmente são qualquer coisa, mas deitam tudo a perder por quererem tão desesperadamente ganhar-nos no desafio a que se propõem.
Em pleno século XXI, as mulheres gostam de ser o predador e a presa, num jogo simultâneo de ganho e perda. Em pleno século XXI, para não se desinteressarem, as mulheres têm de ser mantidas em cativeiro e soltas quando necessário, têm de ser queridas e renegadas, desejadas e rejeitadas, num perfeito equilíbrio entre o 'dar' e o 'tirar'. É complicado, eu sei. Mas, no fundo, para não se desinteressarem, algumas mulheres têm de ser confundidas - e só quando encontrarem um adversário à altura e que não desista do jogo, é que elas vão querer, finalmente, tréguas.

domingo, 14 de agosto de 2011

nós, as apaixonadas pela cor


Todas as mulheres que usam vernizes acabam eventualmente por se apaixonar por eles.
Ao contrário dos homens, os vernizes raramente desiludem, e mesmo quando lascam, podemos sempre retocar e disfarçar as pequenas lacunas. Outra opção será comprar logo à partida uma boa marca e um verniz transparente para reforçar a cor - se for possível decifrar o sexo masculino e fazer o mesmo, avisem-me. Por favor.